É proibido fumar

Várias câmeras captam o que acontece ao redor de um edifício. Em imagens em preto e branco, pode-se ver o que se passa no elevador, no saguão, na garagem e na rua. Que azar para a protagonista. Uma câmera acaba gravando o acontecimento que muda completamente a vida das personagens de um filme que, até então, parecia se direcionar a mais uma comédia romântica nos moldes de Hollywood. Lançado em 2009, “É proibido fumar”, de Anna Muylaert, ao contrário do que o título possa sugerir, não é uma cruzada anti-tabagista, nem é uma história com um fundo moral contra o cigarro. Em suma, o evento descrito anteriormente é causado por uma distração da personagem principal, Baby, na hora em que ela se satisfazia com um trago.

Baby (Glória Pires) é uma solteirona de meia-idade e professora de violão que acaba se interessando pelo seu novo vizinho, Max, interpretado pelo músico Paulo Miklos. Os dois iniciam um estranho relacionamento, em que o ciúme de Baby e as atitudes de Max levam a situações peculiares, tais como o furo que a protagonista faz na parede para espiar seu vizinho. Nem um nem outro parece ter suas intenções muito claras e, no fim, o relacionamento dos dois se assemelha mais a uma última gota de esperança em ser feliz do que a uma situação de amor verdadeiro. Eles gostam um do outro porque dependem um do outro. Tais atitudes dificultam a identificação com as personagens, transformando o filme, ao invés de uma experiência de mergulho em outro mundo, em um teatro onde o público mantém distância dos acontecimentos.

A princípio, a visão das câmeras foi introduzida de maneira estética, mas ganha uma importância muito maior ao ser a única testemunha do tal incidente, fato que revelará a real personalidade dos envolvidos. Belo acerto a um filme que mostra ser possível produzir longas brasileiros em formatos mais tradicionais. Talvez a narrativa careça de certo dinamismo, entretanto, o ritmo calmo dá um suspense maior. A dúvida persiste até o fim. O mistério não se esgota na primeira tragada.

Oliver Altaras

, , , , , ,

Deixe um comentário

O expresso da meia-noite

O expresso da meia-noite não é um trem, mas com certeza é uma viagem que todos os prisioneiros gostariam de fazer. Entre eles está Billy Hayes, um americano que tenta contrabandear drogas da Turquia para os EUA, mas, por uma infeliz coincidência de eventos, é revistado e flagrado no embarque de seu avião. Ele é preso e passa vários anos de sua vida em uma prisão turca. Essa é a história do filme “O Expresso da Meia-Noite”, baseado no romance homônimo escrito pelo próprio Billy Hayes, contando as suas experiências reais como presidiário na Turquia. O título se refere a uma gíria de prisioneiros, isto é, pegar o “expresso da meia-noite” significa fugir da prisão. Essa ideia, a princípio, não é muito tentadora para Hayes, já que ele é condenado a “apenas” quatro anos de detenção. No entanto, a justiça resolve alterar sua pena para prisão perpétua, restando a ele uma única saída: a fuga.

O filme recebeu diversas críticas negativas na época de seu lançamento, especialmente pela representação do povo turco, que muitos julgaram irreal e ofensiva. Por outro lado, foi também amplamente aclamado pela crítica mundial, rendendo-lhe várias indicações ao Oscar de 1978, incluindo melhor filme. Dirigido pelo inglês Alan Parker e com roteiro do até então não muito conhecido (e xará de quem lhes escreve este texto) Oliver Stone, “O Expresso da Meia-Noite” tem um quê de desesperador. O significado do título do longa-metragem é explicado logo na primeira metade do filme, levando a plateia a supor o que vai acontecer no final. Mas chega um ponto no filme em que Billy Hayes ganha um aspecto tão doentio e insano, que talvez a fuga pareça algo impossível. Ele não tem mais forças para ser livre.

Somos induzidos, no decorrer do filme, a esquecer que Billy Hayes não é inocente. Ele realmente contrabandeou drogas e teve um julgamento, em tese, justo. Nada disso, no entanto, tira a empatia do espectador pelo protagonista. Afinal é um sujeito retratado como vítima das circunstâncias, alguém que estava no lugar errado e na hora errada. Seu drama não é aquela prisão, nem são aqueles guardas. Sua tragédia é passar a acreditar que jamais será livre novamente, vivendo longe de casa e com pouca esperança. Esperança que se deteriora a cada dia. Porém, existe uma luz no fim do túnel. O túnel por onde passa o expresso da meia-noite.

Oliver Altaras

, , , ,

Deixe um comentário

Morgue Story – Sangue, baiacu e quadrinhos

Se eu tivesse que em poucas palavras definir o filme Morgue Story – Sangue, baiacu e quadrinhos (2009), a resposta seria: trash, tosco e divertido. E não entenda esse “trash e tosco” como algo ruim. Pelo contrário: esses elementos só o tornam mais interessante, ainda mais quando se tem o baixo orçamento da produção como aliado – mesmo que involuntário. Adaptado a partir da peça homônima do grupo de teatro Vigor Mortis, de Curitiba, Morgue Story tem roteiro e direção do diretor teatral do grupo, Paulo Biscaia, e apresenta uma história de terror insólita e recheada de referências pop.

Narrada pela quadrinista Ana Argento (Mariana Zanette), a trama tem início no momento em que ela entra num estado de catalepsia – quando há uma redução no ritmo de funcionamento dos sinais vitais – e é dada como morta após tomar um drink, misturado a uma “poção” feita com a toxina existente no peixe baiacu. Com isso, ela é levada ao necrotério, onde conhece o cataléptico Tom (Anderson Faganello), vendedor de seguros de vida, e o médico legista Daniel Torres (Leandro Daniel Colombo), que a envenenara anteriormente num bar com a intenção de estuprá-la.

Morgue Story é um filme que consegue equilibrar bem os gêneros do terror e da comédia, com diálogos divertidos e mórbidos, além de muito sangue, perversão e situações nonsense – afinal, a lógica não é o tipo de característica mais privilegiada em filmes como esse. Há também outras coisas legais no filme, como os diálogos e clichês protagonizados por Ana Argento, a relação do médico com a mãe e a estranha ligação entre as três personagens e um barman.

As histórias de zumbis e a estética dos quadrinhos são influências claras do filme, mas há também referências a Kate Bush, ao cineasta italiano de filmes de terror Dario Argento (vide o nome da protagonista) e até a Bruce Willis. Morgue Story ganhou seis prêmios internacionais: de melhor filme, melhor filme de terror e melhor atriz, e participou de outras premiações e seleções. Mais informações pelo site: http://www.vigormortis.com.br.

 

 

Fábio Cherubini

, , , , , ,

Deixe um comentário